Vacinas e Crimes Perfeitos

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Nos meus livros, costumo usar notícias que estão na mídia e me impressionam pelo ar de tragédia. Então coloco o detetive Alyrio Cobra para investigar e, fugindo da realidade, a imaginação corre solta. A primeira investigação de Alyrio Cobra é baseada no assassinato da professora de uma escola da periferia da cidade de São Paulo. Na época, vários casos parecidos foram noticiados e meu detetive foi envolvido em um deles. No começo deste milênio, a notícia da contaminação de um medicamento, na realidade um contraste para exames de raios-X, o Celobar, me impressionou bastante. É de fato uma tragédia a pessoa ir fazer um exame na busca da cura e sair morto. Na tentativa de baratear a produção do Celobar, os administradores do laboratório resolveram deixar de importar da Alemanha a sua matéria-prima, partindo para uma arriscada experiência química de transformação do carbonato de bário (utilizado na fabricação de veneno para ratos) em sulfato de bário (utilizado para a fabricação de contrastes para raios-X). Não é de estranhar que o “experimento” tenha se frustrado, não sem antes contaminar diversos lotes do medicamento. Várias pessoas que utilizaram o contraste para fazer exames de imagem, morreram como se tivessem utilizado veneno de rato. No meu livro, Rigor da Forma, o detetive Alyrio Cobra envolve-se nesta tragédia. No momento, vivendo essa incrível pandemia, tenho acompanhado o desenvolvimento das vacinas. Normalmente vacinas levam muitos anos para provarem sua eficácia e serem aplicadas na população. No caso da COVID 19 é preciso rapidez. Pessoas estão morrendo. Os médicos sequer conhecem tratamentos eficazes para os estragos que o vírus causa. Até os medicamentos estão em fase de teste. E os infectados estão servindo de cobaias. Aqui no Brasil, os casos e as contaminações estão diminuindo, mas na Europa a segunda onda está vindo com força. Os profissionais de saúde já conhecem um pouco melhor o vírus e estão aplicando medicamentos mais eficazes e salvando mais vidas. No entanto, segurar o vírus, somente com a vacina. Acredito que ainda não se sabe ao certo como o vírus afeta o sistema imunológico. Já se sabe que o vírus vive por um bom tempo no ar. É atraído pela boca, nariz, olhos e se aloja na garganta. Ali, ele certifica-se de estar bem acomodado na mucosa das vias respiratórias superiores. Então pega sua proteína S e, dando uma engambelada na célula, faz com que ela se abra. Dentro da célula, como em um relacionamento abusivo em que não se sabe onde começa a individualidade de um e termina o espaço do outro, a célula reconhece o RNA do vírus como seu e começa a reproduzi-lo em uma escala gigantesca. O vírus é rápido pelo simples motivo que quer viver e, para isto, precisa de um organismo vivo. Se a célula enganada não se abrisse para ele, ele morreria. Mas uma vez dentro da uma célula, ele se reproduz aos milhares e começa a invadir outras células. Então, eles seguem sua descida perigosa em direção às vias aéreas inferiores. Entram nos brônquios até os pulmões. Seguem também outros caminhos, atingem outros órgãos. Aí começam os problemas. Infecção, febre e sabe-se lá mais o quê! Quando escrevi RIGOR DA FORMA, li muito sobre o Celobar, como atuava no organismo. Agora, tenho acompanhado médicos e cientistas dedicados à pesquisa. Através da mídia, acompanho toda a batalha com as vacinas, penso em colocar meu detetive atuando na área como ele fez com o Celobar. Em Rigor da Forma, Alyrio investigou a morte de Vitória, ocorrida após um exame de imagem e deparou-se com sua companheira que estava escrevendo uma tese de doutorado sobre a poeta Francisca Júlia, uma parnasiana que compunha versos com a métrica perfeita. Na investigação, Alyrio se defrontou com a maestria de se criar um crime tão perfeito como as rimas da poeta. Será que crimes perfeitos existem?

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